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Os homenzinhos verdes

Desde tempos imemoriais que os homens olham para os céus e se perguntam: “Existe vida inteligente fora da terra?”. Infelizmente, nem o tempo, nem a ciência, nem a tecnologia, trouxeram ainda uma resposta final a esta pergunta.

Especialmente durante a época áurea da exploração espacial, na segunda metade do século passado, a ficção científica brindou-nos com imensos romances e filmes povoados de homenzinhos verdes, que, ora eram nossos fiéis amigos, ora nossos implacáveis inimigos. Dentro do domínio da ficção, é imprescindível referir marcos como o famigerado filme ET, em que um ser alienígena estabelece uma profunda relação de amizade com uma criança. E a Guerra das Estrelas, que nos transporta a um universo pleno de vida inteligente, civilizações pitorescas, quezílias e alianças inter-galácticas, bem como naves espaciais de tecnologia infinitamente avançada.

Fora do domínio da ficção, há os relatos e mesmo as «evidências». São inúmeras as pessoas que dizem ter avistado objectos voadores não identificados (OVNI), que geralmente consideram discos voadores vindos de outros planetas. E não falta mesmo quem afirme ter estabelecido contacto com seres de outras civilizações, ter sido raptado, objecto de estudos médicos, ou mesmo ter recebido informações privilegiadas dos «homezinhos verdes». Que provas há disto tudo? Muito poucas. As evidências são geralmente fenómenos que não conseguimos explicar, mas o facto de permanecerem inexplicados não faz com que sejam definitivamente prova da presença de artefactos ou seres de outros planetas. Um exemplo muito conhecido é caso Roswell. Para os crédulos caiu em 1947, próximo da cidade americana de Roswell, uma nave vinda de outro planeta. O governo americano terá então procedido à recolha do equipamento, bem como das vítimas, e tentado ocultar a verdade sobre o assunto. Os cépticos, contudo, têm uma explicação diferente: em Roswell terá caído um balão atmosférico, ou outro artefacto de pesquisa científico-militar, lançado da base aérea próxima. Por se tratar de um objecto de investigação militar, o governo americano escusou-se a grandes explicações, e a imaginação dos entusiastas e a exploração comercial do assunto fizeram o resto.

O que há de verdade no meio disto tudo? Vários pontos, designadamente: 1) muitos «ovnis» vêm mais tarde a ser identificados com aviões ou outras máquinas terrestres que não eram conhecidas do público à data das primeiras visualizações; 2) muitas ocorrências acabam por ser explicadas como fenómenos naturais; 3) algumas acabam por ser remetidas para a esfera pessoal e consideradas alucinações de origens diversas; e 4) há muitas visões que continuam por explicar «definitivamente».

Quanto ao ponto 1), máquinas terrestres erroneamente identificadas, basta lembrar a imensa profusão de relatos durante a Guerra Fria, ou em épocas de actividade militar mais intensa. Aviões ultra-secretos, aviões espiões em voo a baixa altitude, mísseis, etc., são reportados pelas pessoas que os avistam, e a imaginação faz o resto. Os satélites artificiais, ou as estações espaciais, são outra «fonte» de ovnis, dada a velocidade com que se movem, as cores que emitem, ou mesmo o comportamento. Por exemplo, os satélites de comunicações Iridium dispõem de painéis solares e antenas de alumínio que, em determinadas posições, projectam a luz do sol sobre a terra. O que vemos é então uma luz muito intensa, primeiro crescente, depois decrescente, em poucos segundos. Quem nunca ouviu falar dos Iridium e vê este clarão na noite, como o explica? “Aí estão eles!!!”, claro!

Quanto ao ponto 2), fenómenos naturais, um exemplo muito típico é o nosso planeta Vénus. Por se encontrar muito perto do Sol, em determinadas alturas do ano, ao princípio ou ao fim do dia, aparece no céu como uma enorme bola brilhante. Não foram poucas as pessoas que o reportaram como... mais um disco voador!

O ponto 3) é, sem dúvida, um dos mais complexos. Especialmente depois do aparecimento de um relato, ou de um filme ou documentário, muitas pessoas influenciáveis são genuinamente afectadas, de forma que acabam por ter sonhos ou visões inevitavelmente ligados aos «homenzinhos verdes», e que reportam como... verdadeiros!

Quanto ao ponto 4), fenómenos que resistem a uma explicação científica, normalmente isto acontece por insuficiência de dados ou provas. Não podemos afirmar que se trata de verdadeiras ocorrências de manifestações de visitantes de outros planetas, mas também não podemos afirmar o contrário. São ocorrências que aguardam novas provas, ou novos desenvolvimentos.

E, para terminar, quando se fala de pesquisa de vida extra-terrestre, é obrigatório falar também do SETI@HOME, um projecto de pesquisa de sinais de vida inteligente no universo. Os sinais são recolhidos por um telescópio gigante e analisados por computador. Obviamente que há imensos dados para analisar, e por isso são divididos em pequenos blocos e distribuídos por diversos computadores em todo o mundo. Desta forma consegue-se uma capacidade de processamento gigantesca, o que já fez com que o projecto entrasse para o Livro de Recordes do Guiness, como o maior projecto de computação distribuída do mundo. Até ao momento nada de especial foi descoberto, mas o projecto não deixa de ser uma ideia interessante e meritória. Para participar, basta visitar http://setiathome.berkeley.edu.

 

Jornal de Oliveira nº 98, 03 de Janeiro de 2007

 



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-15-Os-homenzinhos-verdes.html

Inserido em: 2007.10.18 Última actualização: 2007.12.01

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