Cérebro de silício

Quem anda atento a estas coisas com certeza ficou surpreendido com a recente notícia de que o Brain Mind Institute, na Suíça, terá construído um modelo, supostamente funcional, de uma parte importante do cérebro humano. Se, como diz o povo, “quem faz uma faz um cento”, então é de acreditar que a mesma equipa conseguirá aquilo que se propõe fazer: simular um cérebro humano completo no prazo de uma década!


O cérebro humano está dividido em diversas «camadas». No interior estão as mais primitivas, no exterior as mais recentes e ligadas à inteligência. O cérebro reptiliano controla as funções mais básicas do organismo, como a respiração. A seguir uma camada que é responsável pelas emoções e memória. A racionalidade surge numa terceira camada, o neocórtex. Sendo a camada que evoluímos mais recentemente, cobre as outras, e tem uma superfície enrugada que lhe lhe dá uma área bastante grande. É a «massa cinzenta», responsável pelo nosso comportamento inteligente.

Só com o cérebro reptiliano seríamos como os «répteis», incapazes de racionalizar ou sequer de amar. Um réptil não tem emoções, por ser desprovido de estrutura cerebral capaz de armazená-las e processá-las. Os mamíferos, pelo contrário, possuem um cérebro bastante mais evoluído. É um pouco por isso que tanto nos afeiçoamos a cães e gatos: a forma como eles processam as emoções é bastante semelhante à nossa. Um simples rato possui uma estrutura mental sofisticada. O rato é capaz de conhecer o dono, bem como ter memória para o bem e o mal que lhe fazem. É capaz de estabelecer amizade e retribuí-la, da mesma forma que um humano. Por isso mesmo, os nossos animais domésticos demonstram gratidão, inquietude e sofrimento pela nossa ausência, ou tristeza quando são repreendidos. Afinal, os mecanismos mentais por detrás dessas emoções são exactamente os mesmos que actuam no nosso cérebro.

No que toca ao neocórtex, a parte «inteligente» do cérebro, é que surgem as diferenças. No homo sapiens sapiens, como nos auto-denominamos, esta parte do cérebro é dominante. E quanto mais exercitada, mais dominante se torna. Daí que nos seja possível controlar as emoções, ou até mesmo funções do cérebro reptiliano, como o parar de respirar.

O neocórtex, sendo uma grande porção de tecido, está dividido em colunas. Cada coluna tem várias camadas, as inferiores com mais neurónios do que as superiores. E cada neurónio tem ligações a outros neurónios da mesma coluna e/ou de outras colunas. O que estes cientistas suíços conseguiram foi, segundo as notícias, simular em computador o funcionamento de uma coluna do neocórtex. E isto não é feito menosprezável: conseguir um modelo computacional do funcionamento de uma coluna é um marco significativo na história da Inteligência Artificial e da Neurociência. Se o modelo for exacto e robusto, agora é «só» conseguir a interligação entre várias colunas e poderemos ter um modelo funcional do neocórtex, pronto a ser utilizado nos nossos robôs domésticos, carros, aviões e tudo o mais. Talvez melhor ainda: um neocórtex apenas, inteligência «pura», racionalidade sem emoção, sem as necessidades insaciáveis de comida, de relações sociais e sexuais, que nos exigem as camadas inferiores do cérebro. Incapaz de amar, a não ser de uma forma fria e racional, mas sem ego, obedecendo apenas às leis com que tiver sido programado.

Mas será esta uma realidade a muito curto prazo? Talvez sim, talvez não. Este não é o primeiro modelo do funcionamento do cérebro, e o facto de ser, provavelmente, o mais complexo alguma vez desenvolvido, não significa que seja exacto, modular ou expansível. Quando se propôs pela primeira vez o modelo de um neurónio, em meados do século passado, a expectativa foi semelhante. E, no entanto, qualquer borboleta ainda tem mais inteligência e autonomia do que um telemóvel de última geração. O que a era do silício ainda nos reserva, só o tempo o dirá – mas estar à espreita é a parte interessante da coisa!

Jornal de Oliveira nº151, 24 de Janeiro de 2008 




Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-28-C-rebro-de-sil-cio.html

Inserido em: 2008.01.23 Última actualização: 2008.01.23

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