Um bom negócio... ou descalabro

Se há coisa que anda agora na boca do povo, a crise económica há-de ser. Bancos que num ano dão lucros de milhões e no ano seguinte abrem falência. Governos que num momento privatizam, porque privado é que funciona bem, no momento seguinte nacionalizam, porque afinal não era bem assim. Biliões de Euros ou Dólares “desaparecem” de um momento para o outro.

Em que ficamos? Para uns, é o fim de uma era. Para outros, apenas uma crise normal do capitalismo, ou mesmo “está tudo bem”. Não falta quem explique por aí a crise vista das mais diversas perspectivas, é inútil entrar aqui em grandes detalhes. A nós, interessam-nos algumas linhas gerais.

É inegável que os negócios foram fundamentais para a evolução social. Os nossos antepassados começaram a fazê-los trocando produtos por produtos: eu tenho ameixas tu tens maçãs, então trocamos umas quantas maçãs por ameixas e ficamos ambos com maior diversidade. Num negócio justo, todos ganham.

Daqui passou-se ao ouro como produto comummente aceite, tipo um bem ou uma moeda universal. Surgiram também os precursores dos actuais bancos, caixas “fortes” onde o ouro podia ser depositado ou guardado em segurança. E surgiram os empréstimos, com um objectivo muito claro: quem precisava pedia temporariamente, depois devolvia com juros a quem o emprestava. Até aqui tudo bem. Justo ou injusto, o sistema era sustentável.

Mas cedo o banqueiro fez uma observação simples: os clientes que depositam o ouro (ou dinheiro, na actualidade), tipicamente não o reclamam todos ao mesmo tempo. Portanto, porquê ter tanto ouro (ou qualquer bem móvel) acumulado? Esse ouro pode ser colocado em circulação, emprestado a quem precisa dele para trocar por outro bem. Melhor ainda: não é preciso ser verdadeiramente ouro: basta um título (papel) que possa ser usado para trocar por ouro no banco. Ou seja, passamos do ouro às notas/cheques/títulos. E, como nem todos os clientes vão trocar os seus papéis ao mesmo tempo, podem ser emitidos muitos mais papéis do que o ouro efectivamente em reserva. Actualmente é comum um rácio próximo de 10:1. Ou seja, as reservas dos bancos são tipicamente 10 vezes inferiores ao valor que colocam no mercado. O sistema complica-se muito mais do que isto, até ao absurdo e o ridículo, mas para o que pretendemos basta ficar por aqui.

A ideia, e o problema central aqui, é que o valor do dinheiro em circulação está desfasado do valor real em reserva. Isto permite liquidez no sistema, mas gera uma riqueza artificial que não tem nem pode ter correspondência prática segundo os moldes actuais. Há um distanciamento claro do sistema financeiro da economia real, de tal forma que parecem dois sistemas completamente distintos e autónomos. O financeiro já não actua como facilitador da actividade económica, nem com base sustentada no sistema económico. Este distanciamento não é sustentável durante um largo período de tempo: a queda é inevitável.

Nada disto seria chocante se quem perde fosse quem ganhou: ficaria tudo na mesma. Infelizmente, não é isso que acontece. Quem recebe o dinheiro gerado artificialmente durante o período de crescimento financeiro pode fazer (e faz) compras reais, adquire riqueza real. Ora durante a queda, as perdas não sobram exactamente para as mesmas pessoas que lucraram durante o período de crescimento. E no caso específico dos bancos em dificuldades, é por demais sabido que as dívidas (essas bem reais), estão a ser assumidas pelo erário público (que, aliás, pode não ter dinheiro para um bom sistema de ensino ou de saúde, mas que se endivida e nos endivida a todos para evitar a falência do sistema sem sequer falar em sanar-lhes as falhas).

No meio disto tudo, quem conseguir abstrair-se das dores do momento desfruta da uma vista interessante sobre a personalidade e comportamento humano. A ambição deu o mote, a tecnologia as ferramentas, e eis em funcionamento um sistema económico imperfeito mas único à escala mundial. Da simples troca de bens abstraímos e construímos um sistema colossal, onde até se pode vender antes de comprar, perder tudo sem fazer a mais pálida ideia de para onde o “tudo” se esfumou, ou enriquecer sem a mais pálida ideia de onde veio a riqueza.

Muito longe vão os tempos da troca de ouro por sal, ou em que os romanos guardavam os sestércios na boca. Hoje, plataformas electrónicas permitem a alguém em Lisboa comprar ou vender 24 horas por dia em Xangai. O quê? Não importa, compra-se, depois vende-se. Na operação ganha-se ou perde-se. Quando se ganha, pode depois transformar-se depois o ganho em bens reais e tangíveis. De onde veio esse bem? Algures do trabalho de um desconhecido, ou do que alguém um dia há-de perder.

 

 



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-36-Um-bom-neg-cio----ou-descalabro.html

Inserido em: 2008.11.02 Última actualização: 2008.11.08

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