De cabeça perdida

Conta a lenda que os santos de Zurique, Felix e Regula, andaram milagrosamente 40 passos, depois de decapitados. Felix e Regula eram dois irmãos, ambos membros da Legião Tebana. A Legião Tebana era uma unidade do exército Romano, constituída integralmente por cristãos recrutados no Egipto, na cidade de Tebas. Segundo a lenda, no ano 286 a Legião Tebana integrou uma campanha do Império Romano para suprimir uma rebelião na zona que é a actual Zurique. Em agradecimento pelo sucesso da campanha, o Imperador ordenou sacrifícios aos deuses romanos, sacrifícios esses que passavam pela execução de vários prisioneiros cristãos. Os soldados da Legião Tebana recusaram cumprir a ordem, e foram eles próprios sacrificados. Segundo a lenda, vários milagres aconteceram então. Entre eles, o milagre de Felix e Regula, que, uma vez decapitados, pegaram as próprias cabeças, andaram quarenta passos até ao cimo de um monte, e aí oraram antes de se deitarem para finalmente morrer.

O ser humano depende fortemente do cérebro. Poucas tarefas podem ser executadas sem controlo da massa encefálica. Um corpo sem cabeça perde mobilidade e as suas capacidades quase todas de imediato. O cérebro sem o corpo mantém actividade alguns segundos, e consegue ter a percepção do desligamento do corpo antes de asfixiar por falta de irrigação sanguínea. Não há explicação, fora do foro místico, para que Felix e Regula tenham efectivamente pegado as próprias cabeças e subido ao monte.

Curiosamente, alguns animais são capazes de comportamentos parecidos ao que a lenda descreve. As galinhas, por exemplo, conseguem manter o equilíbrio e correr depois de decapitadas. As baratas, exemplo supremo de adaptabilidade e capacidade de sobrevivência, conseguem viver vários dias sem cabeça antes de morrerem de fome.

Mas o ser humano é fortemente dependente de um controlo central do cérebro. Pode viver sem um membro, sem um olho, um ouvido, ou até sem os dois, mas deixe de funcionar o cérebro e é o fim. Essa vulnerabilidade é a mesma que se nota em muitos sistemas de informação, ou mesmo organizações – o problema que decorre de um sistema de controlo centralizado, não distribuído.

Os primeiros robôs, e agentes inteligentes em geral, que se fizeram, tinham forte tendência para a centralização: um só módulo era responsável pelo controlo dos restantes. Ora quando esse módulo falha, todo o sistema deixa de funcionar. E a falha não tem de ser necessariamente grande – pode ser simplesmente falta de capacidade de resposta do módulo controlador, por excesso de solicitações. O mesmo que acontece quando o Estado, governo ou o gestor de qualquer empresa ou organização, é centralizador e afoga o país ou a instituição que controla. Sendo nós, humanos, tão dependentes de um órgão central, talvez seja essa uma explicação para o facto disso acontecer com mais frequência do que seria desejável. Lamentavelmente, aí as galinhas, e até as baratas, estão em vantagem. Tirando o caso dos santos de Zurique, não há muitos relatos de humanos com controlo distribuído e capacidade de executar funções uma vez perdida a cabeça no sentido literal da expressão.

Mas, se as primeiras máquinas e sistemas informáticos eram fortemente centralizados, a realidade actual caminha noutro sentido. A Internet, por exemplo, cresceu naturalmente de forma descentralizada (para não dizer mesmo anárquica). Isto dá-lhe uma robustez enorme. Quando se quebra uma ligação, a rede reorganiza-se e o tráfego pode circular por outro lado, continuando o serviço em funcionamento quase normal.

Além da Internet, as próprias máquinas começam a ter controlo fortemente distribuído. Se não for por outro motivo, é que assim acaba por ser mais fácil implementá-las. Por exemplo, é mais fácil implementar num robô bípede o comportamento de manter-se em pé, depois o de andar, do que tratar de tudo ao mesmo tempo. Implementadas as capacidades de equilíbrio e de andar, pode-se então passar às de planear trajectórias e outros raciocínios de maior complexidade. Um robô destes, que por algum motivo perca a capacidade de andar ou planear, pode mesmo assim manter-se em pé. Daí até ser capaz de, caso seja decapitado, agarrar a cabeça e andar 40 pés, como os santos de Zurique, a distância não é tão grande assim.

 



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Inserido em: 2010.06.03 Última actualização: 2010.06.03

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