Inteligência Emocional e as outras

Era eu ainda estudante de licenciatura e um dia, na biblioteca da universidade, abeirou-se um colega de antropologia e perguntou: “O que é que estás a estudar?”. “Inteligência Artificial”, respondi. Ao que ele ripostou: “Não tens inteligência natural?” Fiquei um tanto atrapalhado, mas lá contrapus que, ao que parece, pertenço à espécie antropologicamente mais inteligente. A parte boa desta estória é que já a pude usar para iniciar aulas, palestras e até um artigo para um blog.

Inteligência: o que você não sabe o que é

Como 90% das pessoas se consideram inteligentes acima da média, há uma probabilidade muito grande de cada pessoa conhecer pelo menos uma pessoa inteligente, que é ela própria. Mas se perguntarmos “o que é a inteligência”, aí o caso muda de figura. Dezenas, centenas, milhares de livros e artigos terão sido escritos sobre a definição de inteligência. É impossível sequer dar uma panorâmica dos contornos do problema num artigo. Entre as inúmeras definições de inteligência, há duas que gosto particularmente.

A primeira definição diz simplesmente que “Inteligência é aquilo que você não sabe o que é”. Isso mesmo, triste e simplório, mas vai direto ao assunto. O bebé é inteligente por saber mamar, mas quando se lhe coloca uma chucha de plástico e ele mama não é inteligência, é reflexo. O aquecedor é inteligente porque liga e desliga sozinho para manter a temperatura, mas quando se percebe o funcionamento do termostato já não tem inteligência nenhuma, é só um termostato.

Desconheço quem terá “proposto” pela primeira vez tal definição de inteligência – e se calhar nem há um autor conhecido, já que se trata quase de uma brincadeira. Mas, mesmo sendo brincadeira, dá para ter uma ideia da dificuldade em lidar com a definição de inteligência, mesmo do ponto de vista técnico. Procurar inteligência é perseguir um alvo móvel, que se afasta logo que estamos quase, quase a compreendê-lo.

Inteligência: a capacidade de sobreviver

A segunda definição de inteligência que gosto particularmente vem de Shane Legg. Esta já é uma definição formal, mas que se pode resumir em poucas palavras como “a soma das recompensas que o ser inteligente consegue obter em diferentes meios”. Quanto mais recompensas, maior será a inteligência.

Um dos aspetos interessantes desta definição é que não é exclusivamente cognitiva – ser inteligente não é apenas ser bom a fazer contas, por exemplo. Até se pode ser mau a fazer contas se for bom noutros domínios. No limite, ser inteligente é ter boa capacidade de sobrevivência no meio em que se está inserido.

Inteligência e gestão da emoção

Onde surge então a “inteligência emocional”? Bem, em poucas palavras pode-se dizer que é a forma como o indivíduo lida com a emoção.

Um teste de Quociente de Inteligência (QI) típico vai aferir as suas aptidões para manipular palavras e símbolos. Vai dizer que você é um génio se tiver excelente raciocínio verbal, lógico, matemático e espacial. Mas isso não explica tudo. Por exemplo, não explica como aquele político com QI de um dígito consegue ganhar eleições.

O teste de QI não vai dizer se você é simpático ou não, se lida bem com as pessoas, se sabe trabalhar em grupo ou se não pode ter ninguém num raio de um quilómetro. À luz da definição de Shane Legg, por exemplo, o teste de QI é incompleto. Você pode ter o QI máximo da escala e ser inábil com as pessoas – e portanto não conseguir somar muitas “recompensas” em atividades que envolvam relacionamentos sociais. É precisamente nesse campo que entra a inteligência emocional.

A importância de ser emocionalmente inteligente

O mote tem sido amplamente aproveitado pelos media. Inteligência emocional tornou-se há poucos anos uma das buzz words. Naturalmente, foi e continua a ser tema de best sellers e programas de televisão científicos e pseudo-científicos. Mas o mediatismo não quer dizer que o tema seja de somenos importância. Pelo contrário, é de crescente importância. A forma como lidamos com os outros merece atenção. Poucas pessoas quereriam viver numa sociedade puramente racional, em que se perdem valores humanos como a empatia e a amizade. Mas também é muito redutor encarar a inteligência emocional numa perspetiva de sucesso pessoal. Lembre-se: a forma como lida com os outros é uma expressão da sua inteligência. Vai ter tanto mais recompensas quanto mais apurar essa inteligência, quanto melhor souber interpretar e gerir as suas emoções e as dos outros. Mas isso é apenas uma das muitas facetas da inteligência, a racionalidade e criatividade, aferidas nos velhinhos testes de QI, continuam a ser da maior importância.

 

 

 



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-55-Inteligencia-emocional-artificial-racional.html

Inserido em: 2015.01.23 Última actualização: 2015.01.23

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