Mariposa morta sobre papel. Mariposa morta sobre papel.

A Mosca

Os primeiros computadores, como é sabido, ocupavam mais espaço do que as nossas casas inteiras, e tinham menos poder de cálculo do que as nossas máquinas de calcular modernas. Isto para além de serem autênticos devoradores de energia eléctrica, precisarem de bons sistemas de refrigeração e de operadores humanos, que não eram mais do que funcionários a auxiliar permanentemente a sua utilização (por exemplo, substituindo cartões de memória, suportes de impressão, etc.).

 

Obviamente que a evolução desde essa altura até aos dias de hoje levou a melhorias então inimagináveis, designadamente uma drástica redução do tamanho e um não menos drástico aumento do poder de cálculo. A complexidade crescente dos sistemas trouxe inúmeras vantagens, mas algumas desvantagens surgiram também como o reverso da medalha. Uma delas é a omnipresença dos famosos «bugs» informáticos (erros que fazem com que os programas tenham comportamentos inesperados e/ou indesejados). São tão comuns que ninguém estranha que o computador bloqueie de vez em quando, ou que precise de ser reiniciado ao fim de algumas horas de utilização, ou mesmo que... seja contaminado por um vírus que faça perder dados ou exigir uma «formatação».

Em parte, a causa de todos estes problemas é a elevada complexidade dos sistemas, tanto ao nível do hardware (parte física), como do software (programas).

Ao nível do hardware, um computador moderno tem várias centenas de componentes electrónicos, e alguns deles, como o processador, têm milhões de transístores. Tudo isto é feito e testado com o maior rigor, de forma que a probabilidade de falha de um destes componentes não é muito elevada. Juntando tudo, no entanto, a probabilidade de, entre todos os vários milhões, encontrar um que falhe, já é significativa. Daí que a longevidade dos computadores modernos seja relativamente modesta.

Ao nível do software, deparamo-nos com programas cada vez mais complexos de dia para dia. Enquanto nos primeiros programas se contavam as linhas de código e os bytes, actualmente contam-se os «módulos» e os megabytes. Como «errar é humano», e todos estes megabytes de código não deixam de ser escritos por humanos, os programas que diariamente usamos estão repletos de «bugs». Muitos desses bugs nunca chegam a ser descobertos, outros vão sendo descobertos e corrigidos... à medida que outros vão sendo introduzidos!

Mas donde vem a palavra "bug"?

Corria então o ano de 1945 (09 de Setembro de 1945), ainda os computadores eram enormes máquinas do tamanho de uma sala (e com menos poder de cálculo do que uma máquina de calcular moderna!), que funcionavam com base em interruptores e relés. Na universidade de Harvard, um computador teimava em falhar. E qual foi o diagnóstico? Uma mariposa presa no relé número 70! Assim que foi descoberto, o insecto foi recolhido e colado na ficha de reparação, com uma nota que identificava que tinha sido encontrado o primeiro «bug» informático. Actualmente, o primeiro «bug» tem direito a posar no museu Smithsonian, ainda colado à ficha de reparação.

O termo "bug" (cuja adaptação para Português ficou "mosca", embora "bug" seja mais "percevejo" do que mosca), contudo, já era usado antes do incidente em Harvard, para designar falhas de equipamentos eléctricos em geral. Daí que se tenha mantido a designação de «bug», em vez de «moth», que é a palavra correcta em inglês para designar uma mariposa. Este incidente levou, contudo, à sua generalização no mundo da informática. Teve especial impacto não só pelo caricato da coisa, mas porque aconteceu quando o computador estava a ser utilizado por Grace Murray Hopper, uma das mais brilhantes cientistas na área da informática. Entre outros trabalhos de relevo, Grace criou a linguagem Cobol, que ainda hoje é usada, embora de forma residual, em muitas empresas.

 

Jornal de Oliveira nº 103, 08 de Fevereiro de 2007

Foto retirada de http://www.jamesshuggins.com/h/tek1/first_computer_bug_large.htm

 

 



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-16-A-Mosca.html

Inserido em: 2007.10.18 Última actualização: 2013.11.13

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