Comércio sem fronteiras

No percurso de crescimento e difusão das tecnologias de informação, uma época de contornos particularmente distintos é o advento das «.com». À custa principalmente delas, os anos 90 viram o surgimento de milionários da noite para o dia. Empresários muitas vezes jovens, que descobriram subitamente o potencial inexplorado da Internet e o souberam aproveitar como nunca antes houvera oportunidade: um mercado enorme, sem fronteiras, ávido de inovações. Muitas «.com» começaram quase de forma ingénua. Meras brincadeiras de quem apenas procurava comunicar, ou testar uma ideia, no novo mundo digital que então se abria. No entanto, os projectos cresceram, vingaram, e alguns terminaram mesmo em negócios de milhões num espaço de tempo nunca antes visto. O motor de pesquisa yahoo, por exemplo, começou por ser um projecto de dois estudantes da universidade de Stanford. David Filo e Jerry Yang começaram por coleccionar e organizar endereços de páginas web, nos tempos livres. Para melhor gerirem a lista, criaram um programa próprio e optaram por disponibilizar também essa mesma lista ao público. A resposta do público foi enorme, e rapidamente o directório do yahoo se tornou um popular motor de pesquisa. Ainda hoje o Yahoo é uma das maiores empresas da área no mundo inteiro.

Entusiasmados pelas histórias de sucesso, muitos investidores particulares e colectivos investiram milhões de euros e de horas de trabalho. A oferta de produtos, serviços e soluções online multiplicou-se em tempo recorde. Infelizmente, não foi possível um crescimento sustentado. A «bolha» acabou por implodir e da euforia passou-se rapidamente ao desânimo. Muitas empresas, algumas porventura até bem estabelecidas no mercado, investiram no mercado online e perderam em vez de ganhar. O comércio online deixou de ser visto como uma revolução na forma de negociar, ou mesmo de enriquecer fácil e rapidamente. Passou, em vez disso, a ser olhado com desconfiança. Afinal, muitos empresários preferiam continuar a explorar o mercado tradicional, que há tantos anos conhecem, do que investir num novo – no qual, ainda por cima, nem sequer vêem os clientes, e estes nem sequer podem tocar os produtos antes de os comprar. As histórias de sucesso passaram a ser cada vez mais raras, embora ainda se contem algumas bem recentes.

Agora que a poeira começa a assentar, os contornos do que é o comércio electrónico e o potencial da Internet começam a ver-se definidos com mais clareza. Igualmente, o acesso à Internet está mais generalizado e estabilizado. O mercado pode, portanto, ser estudado com um menor grau de incerteza. Isto não significa ainda que investir online seja garantia de sucesso. Como em todos os negócios, há um potencial e um risco inerentes à actividade e ao próprio mercado. O segredo, como em todos os negócios, está em conseguir encontrar os consumidores e ajustar a oferta às suas necessidades – e fazê-lo para a Internet é diferente de fazê-lo para uma loja com montra virada para a rua. Encontrar os consumidores online implica divulgação nos sítios que eles frequentam. E eles frequentam ou utilizam motores de pesquisa, fóruns, comunidades online, blogues e sítios diversos. Anunciar na Internet é completamente diferente de anunciar na rua (e tanto assim é que de todas as tentativas que foram feitas de publicitar online, apenas algumas perduram ainda!). Além disso, criar e montar uma loja online não é o mesmo que uma loja física, e não pode ser feito com o mesmo espírito. A forma de expor o produto ou serviço tem de ser diferente. O cliente que compra online pode estar simultaneamente em diversas lojas, a comparar diversas ofertas. Não tem um vendedor ou um assistente com quem possa esclarecer dúvidas no momento. Pode estar em casa, no café ou no outro lado do mundo. Pode fazer as compras de manhã, à tarde ou à noite. Pode querer comprar no momento ou tão somente usar a Internet como fonte de informação antes de se deslocar a uma loja física, se o produto ou serviço for também comercializado fora do mundo virtual.

Uma das grandes vantagens da Internet é que é, precisamente, um mundo sem fronteiras. Uma página pode ser acedida praticamente com a mesma facilidade aqui, na China ou no Canadá. Além disso, está «aberta» 24 horas por dia, sete dias por semana. Em termos comerciais, é um mercado potencialmente sem fronteiras, e as regras destas só se aplicam quando há necessidade de efectuar transacções de produtos ou transferências monetárias de um país para outro. De resto, o ciberespaço é todo um mundo novo, livre, onde é tão fácil falar com alguém na casa ao lado como algures no outro lado do mar. Assim, é natural que, mesmo pequenas empresas, comecem a tirar partido do potencial da Internet para conquistarem um mercado de dimensão nacional, ou mesmo internacional. Uma pequena página, uma apresentação e uma forma de contacto, bastam para começar, e o preço é suficientemente baixo para estar ao alcance de qualquer mortal. Mesmo soluções completas de comércio electrónico, recorrendo a software livre, têm actualmente um custo insignificante. Em consequência, micro-empresas, ou empresas familiares, que há vinte anos não teriam sequer hipótese de prosperar além da região em que se inserem, utilizando o potencial da Internet podem partir para a exportação, à conquista de novos nichos de mercado. Regiões como esta, estigmatizadas pela interioridade, podem ser as que mais beneficiam com o florescimento deste novo mundo.


Jornal de Oliveira 134, 20 de Setembro de 2007



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-19-Com-rcio-sem-fronteiras.html

Inserido em: 2007.10.18 Última actualização: 2007.12.01

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