A voz do dono

Falar é para nós uma coisa tão natural, tão óbvia e simples que só damos pela sua importância quando uma rouquidão das antigas nos tolda a voz. E, apesar de toda a naturalidade com que aprendemos línguas e nos expressamos, a verdade é que o processamento de língua natural tem sido um dos mais complicados problemas que a Inteligência Artificial tem enfrentado.

Poucas serão as vezes que reparámos quantos anos uma criança leva a dominar a linguagem. Passa mais de um ano até às primeiras palavras, mais alguns falar de forma inteligível, e mais de uma década até falar, ler e escrever com mestria, respeitando as regras e excepções da sintaxe, bem como os sentidos directos e indirectos da semântica. Simples? Nem por isso, bem vistas as coisas. E isto antes de pensarmos que é quase fatídico que depois dos quarenta anos é praticamente impossível aprender uma língua nova (constatação popularizada no conhecido aforismo, segundo o qual “burro velho não aprende línguas”).

Assim contextualizado, talvez se compreenda a grande dificuldade que tem sido produzir um robô com capacidades de expressão oral ou escrita “aceitáveis”. As línguas naturais são de uma complexidade gritante. Daí também a necessidade de criar linguagens especiais para programar computadores. Por isso, só muito recentemente se conseguiram construir robôs com capacidade de expressão mediana e robusta. Os mais populares são os “chatter bots”, que começam a aparecer em diversos websites, disponíveis para conversar com os visitantes. Têm fraca memória (se é que têm alguma) e uma capacidade de aprendizagem muito limitada, mas são capazes de parecer tão reais que enganam o mais incauto. A conversa é normalmente por escrito, visto que o processamento de voz é outro gigantesco problema que ainda estamos longe de conseguir resolver bem.

O primeiro chatter bot já vem dos anos 60 do século XX. Foi escrito quase por brincadeira, mas acabou por resultar numa autêntica revolução. Chamava-se Eliza, e era capaz apenas de conversar num contexto muito limitado. Eliza seria então um(a) psicoanalista. No contexto da psicoanálise, uma conversa até aparenta um grande realismo. Num dos primeiros testes práticos (nesses longínquos anos 60), a senhora a quem foi dada possibilidade de testar a Eliza chegou a estar tão convencida da autenticidade e da consciência do programa informático que solicitou a possibilidade de conversar a sós com ele! E, no entanto, a Eliza não é mais do que umas poucas regras que procuram palavras-chave nas perguntas para daí construir respostas tipo. O método é tão pouco fiável que se se colocarem duas “Elizas” a conversar, rapidamente estas entram em ciclo. Mas ainda hoje se encontram na Internet muitas implementações de Eliza, especialmente em inglês, e é sempre bom e recomendável uma conversa com elas.

Outro chatter bot a fazer furor é a ALICE, que se encontra em http://www.alicebot.org. A ALICE é um robô de muito mais alto nível. Não é fácil (talvez seja mesmo impossível) colocá-la em ciclos, como à Eliza. A conversa tem um realismo autêntico. Não sabendo de antemão quem está do outro lado, só uma mente astuta ou ao fim de uma longa conversa se consegue identificar que ALICE é na realidade um robô, que não passa de um programa informático a correr algures num computador igual a tantos outros!

Tal como grande parte das “Elizas”, ALICE também conversa em inglês. Mas para quem preferir a língua lusa, em http://www.inbot.com.br/ed pode conversar com o Ed, um simpático robô brasileiro que ainda por cima é “especialista” em conservação de energia. Assim, não só pode passar um bom bocado com dois dedos de conversa, como pode ainda por cima aprender algumas dicas sobre poupança de energia.

Infelizmente, todos ou quase todos estes robôs têm sérias deficiências ao nível da memória, pelo que facilmente perdem o contexto. Além de que não espelham emoções humanas, como a empatia ou a fúria. Estas são, por isso, uma boa forma de conseguir distinguir se do outro lado está um programa de computador ou alguém de carne e osso!



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-30-A-voz-do-dono.html

Inserido em: 2008.03.19 Última actualização: 2008.03.19

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