Você passa o teste de Turing?

Sim, você arrisca-se mesmo a não passar o teste de Turing e ser confundido com uma máquina. Aliás, não seria a primeira pessoa a quem isso acontece.

Foi já nos longínquos anos 50 do século XX que o matemático Inglês Alan Turing propôs um teste muito simples para verificar se uma máquina era inteligente: colocar uma pessoa a fazer perguntas a um interlocutor desconhecido. As perguntas são feitas por escrito, e quem responde tanto pode ser uma pessoa como um computador. Obviamente, quem pergunta não sabe se quem responde é humano ou não: o objectivo é precisamente descobri-lo. Alan Turing propôs que quando um computador fosse confundido com um humano, então esse computador deveria ser considerado uma máquina inteligente.

O teste de Turing foi uma proposta astuciosa para a época – afinal, nos anos 50 estava-se ainda longe de construir uma máquina capaz de conversar como um humano. Mas foi sol de pouca dura: rapidamente se provou que mesmo um programa simples é capaz de passar o teste de Turing. Pior do que isso: os “chatter bots” (programas que conversam) são hoje tão comuns que se confundem com pessoas, e as pessoas são inadvertidamente confundidas com robôs.

Hoje em dia é comum encontrarem-se salas de “chat” em muitos websites, de forma que os visitantes possam conversar entre eles, ou esclarecer dúvidas com a equipa técnica da empresa ou instituição que mantém o website. Mas aí surge um problema: é que se ninguém estiver disponível para conversar, a sala está vazia e o cliente ou visitante não pode conversar sozinho. Para isso, muitos técnicos optaram por uma solução simples e barata: colocar um programa informático sempre na sala. Um programa não tem de se ausentar, não se cansa, pode estar disponível 24 horas sete dias por semana, não se zanga com os interlocutores. Está disponível, com um nome atribuído pelo técnico que o lá coloca, e responde sempre que alguém aparece para conversar. Obviamente, com as limitações inerentes a qualquer programa informático.

A confusão nasce precisamente aí: quem entra numa sala de “chat” não sabe à partida se lá está uma pessoa verdadeira ou um programa informático. Há 10 anos atrás ninguém esperava encontrar um programa, mas hoje em dia não é bem assim. Já não é tão raro quanto isso, e a confusão instala-se. Obviamente que o mais frequente é que os robôs passem por pessoas e corra tudo bem, mas também já há relatos de pessoas que são confundidas com robôs. Jason Striegel [1], por exemplo, relata na sua página pessoal dificuldade em conversar com alguém que o confundiu com um robô.

Em parte isto acontece porque nós assumimos que a máquina não tem sentido de humor, não tem sentimentos, não tem senso comum e tem apenas um raciocínio linear. E, nessa perspectiva, seria sempre fácil a alguém, com meia dúzia de perguntas, distinguir um programa informático de uma pessoa. Mas, pobre Alan Turing, provavelmente nunca pensou que em poucas décadas chegaríamos a esta facilidade de em meia dúzia de horas construir um programa que simule praticamente qualquer aspecto da personalidade humana que seja expressável em texto escrito [2]. Mesmo a linearidade do raciocínio pode ser disfarçada com recurso a alternativas de resposta escolhidas aleatoriamente. Quer queiramos quer não, temos de admitir que é mais ou menos isto que faz a mente humana: escolher respostas de um conjunto de alternativas aprendidas com base na nossa experiência, ou criadas por nós mesmos.

Hoje nas salas de chat é muito comum começar a conversa por perguntar: “De onde teclas?” (ou, utilizando a linguagem abreviada típica, “dd tc?”), ou por “m/f” (sexo masculino ou feminino?). Provavelmente não tardará muito para que se comecem as conversas comece por “Humano ou robô?”, ou, na gíria, “h/r?”.


[1] http://www.electric-escape.net/node/958.

[2] http://www.alicebot.org, por exemplo.



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-34-Voc--passa-o-teste-de-Turing-.html

Inserido em: 2008.08.20 Última actualização: 2008.08.20

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