Racionalizando

Os fãs do “Caminho das Estrelas” hão-de com certeza lembrar a lógica do inesquecível Spock. Orelhas de gato, meio humano, meio extra-terrestre, Spock dispunha de uma capacidade de dedução e raciocínio que chegava a ter tanto de brilhante como por vezes de hilariante ou cruel. Numa missão em que a probabilidade de alguns sobreviverem aumentasse consideravelmente com sacrifício da vida de outros, Spock não hesitaria no sacrifício. Tão simples e linear quanto isto. Mesmo que o potencial sacrificado fosse ele, assumia-o sem qualquer problema ou traço de emoção. Afinal, era o procedimento óbvio a tomar, de forma lógica e racional. Tão simples quanto isso. Como somar dois mais dois. Não pode haver margem para dúvida, basta saber fazer a conta.

Spock era capaz de tomar decisões de forma perfeitamente desapaixonada, fria e racional. Por vezes estas decisões resultaram absolutamente ilógicas para um humano, e mesmo em mortes das personagens da história. Outras tantas vezes, resultaram decisões de uma completa abnegação e altruísmo, em que Spock colocou à disposição a sua própria vida, com a mesma simplicidade e facilidade com que se oferece um objecto desprovido de qualquer valor. O que foi diferente entre ambas as situações, ou o que há aqui de errado?

A lógica, as equações, os números, não são frios nem quentes. Não são cruéis nem apaixonados. O que muda, isso sim, são os factores em jogo. Considerando o factor humano, sensibilidade ou sofrimento, Spock era capaz de tomar decisões perfeitamente éticas e lógicas, de acordo com os mais nobres princípios humanos. Desconsiderando-as, arriscava-se a decidir como um cruel tirano. A diferença determinante não era a carga emocional, uma vez que Spock não dispunha de emoções, mas tão somente os factores que considerava nas suas equações. Este personagem da série mostra de forma clara e tecnicamente quase correcta a forma como “decide” um computador. Os factores em jogo podem ser emocionais. Muito embora Spock não sentisse as emoções, estas eram para ele quantificáveis: uma variável como outra qualquer. Um exemplo que pode deixar descansada qualquer pessoa que se preocupe com estas questões, ao mostrar que o mal, se existe, não está no método de decisão. O método não é bom nem é mau. O que importa são os dados de entrada.

O ponto interessante aqui é que Spock, não tendo capacidade de sentir, era capaz de decidir e calcular como se, do nosso ponto de vista, sentisse. Em contraposição nós, humanos, que temos capacidade de sentir, muitas vezes somos capazes de nos abstrair completamente das emoções dos outros. Todos (excepto autistas) temos capacidade de nos colocar no lugar de outras pessoas e sentir o que elas sentem. Mas isso não significa necessariamente que usemos essa capacidade. Especialmente se essas pessoas se encontram ausentes ou nos são desconhecidas.

Diz o provérbio “olhos que não vêem, coração que não sente”, e daí parte muita coisa. É difícil matar uma pessoa, mas muito fácil declarar uma guerra. É difícil ver uma pessoa morrer de fome, mas muito fácil cortar-lhe o salário. É difícil matar um animal, mas muito fácil comprar um bife no supermercado.

Assinar um despacho, dar uma ordem, usar o produto do sofrimento dos outros para nosso próprio proveito, não é de todo difícil e nem sequer causa a maior parte das vezes um problema de consciência.

O problema? Obviamente que não está na racionalização, não está naquilo que se faz. Está naquilo que não se faz. Está na falta de uma visão globalizada que ligue as coisas. Um certo autismo, que nos impede de usar a empatia que naturalmente temos para nos colocarmos no lugar dos outros que efectivamente sofrem, de sentir o que eles sentem. Falta essa ligação, essa cultura, para que as decisões sejam tomadas considerando também os factores humanos, emocionais, mas não primitivos.

Quantas crianças da cidade sabem de onde vem mesmo aquilo que comem? Quantas sabem germinar uma semente ou plantar uma árvore? Quantas são capazes de estabelecer a ligação entre o douradinho no supermercado e o peixe que teve de ser morrer para lhe dar origem? Ou entre a embalagem do chocolate que deitam para a água e a qualidade da água que recebem em casa? Ou entre a gasolina que têm no carro e as guerras pelo petróleo?

Infelizmente, não são só as crianças urbanas que têm esta dificuldade em estabelecer a ligação. Economistas, gestores, políticos, são muitas vezes os primeiros a padecer dela. Para o empregador, o empregado é apenas um funcionário, especialmente se nem sequer o conhecer pessoalmente. É uma entrada num software, uma linha numa folha de cálculo. Não é uma pessoa, não tem família, não tem vida pessoal, nem amigos, nem filhos – nada disso se vê, por isso não existe.

A solução? Tão simples como estabelecer a ligação que não está a ser feita. Conhecer a origem dos bens que adquirimos, conhecer pessoas e lugares, vermo-nos nos outros, por diferentes que à primeira vista possam parecer de nós. Usando uma máxima da moda, “pensar globalmente, agir localmente”.

 



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-37-Racionalizando.html

Inserido em: 2008.11.08 Última actualização: 2008.11.08

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