O mundo como um prego

Alguém disse um dia que "para quem só tem um martelo, o mundo inteiro é um prego". Embora seja uma frase que me parece absolutamente digna de nota, ou talvez precisamente por isso mesmo, a verdade é que numa pesquisa rápida encontra-se em várias fontes, mas não se consegue determinar-lhe a origem. Seja como for, é digno de nota e infelizmente mais real e actual do que seria desejável. Encontram-se também algumas variantes, como sejam “Para uma criança com um martelo na mão, o mundo inteiro parece um prego”. A ideia é basicamente a mesma: quando temos uma ferramente qualquer à mão, tentamos usá-la seja no que for, independentemente desta ser adequada ou desadequada.

A frase vem resumir a postura de quem está nos antípodas da simplicidade e modéstia de Sócrates. Na vanguarda do seu tempo, extremamente culto e conhecedor em diversas áreas científicas, Sócrates compreendeu que o que havia para saber e conhecer era infinitamente mais do que tudo o que ele próprio tinha aprendido até ao momento. Resumiu a sua conclusão no famoso "só sei que nada sei". Sócrates viveu entre 470 AC e 399 AC, foi um dos mais proeminentes filósofos de todos os tempos e a afirmação ainda hoje, vinte e cinco séculos depois de Sócrates, anda na boca do povo.

Longe de demonstrar ignorância, a afirmação de Sócrates é uma demonstração de consciência. A consciência de que o conhecimento é infinito, muito para além do que um homem consegue apreender, por mais culto ou inteligente que seja. O cérebro humano tem dez mil milhões de neurónios, o que, sendo uma capacidade imensa, não é infinita. Ter consciência disso, mais do que modéstia, é realismo. É apenas realismo aceitar que o conhecimento é tão vasto que é impossível abarcá-lo todo, ou mesmo abarcar uma quantidade muito significativa para se poder afirmar que se sabe “muito”. E mesmo que se saiba “muito”, esse “muito” é sempre “pouco”, é sempre “nada” comparado com o infinito que ainda falta saber.

Ver o mundo como um prego quando só se tem um martelo é exactamente a postura contrária à humildade de Sócrates. Longe de ser invulgar, acaba por ser uma coisa extremamente natural. Por exemplo, em informática programadores júniores (e não raras vezes séniores!) que aprendem uma linguagem de programação, tendem a tentar fazer tudo nessa linguagem. A linguagem tem de servir para o que quer que seja, não por ser adequada, mas simplesmente por ser a que eles dominam naquela altura. Qualquer que seja a aplicação ou o problema, a linguagem que melhor dominam é a “melhor”. Nem importa sequer analisar os detalhes ou as alternativas. Programador que tem um martelo à mão, vê o mundo inteiro como um prego.

Mas este comportamento é naturalmente humano. Encontra-se em pessoas desde as classes menos esclarecidas às supostamente mais cultas, bem como desde a esfera doméstica às mais altas instâncias políticas. E até mesmo agora, na esfera financeira, quando se tenta resolver a tão badalada crise com as mesmas receitas com que ela foi criada.

Note-se, contudo, que ver o mundo como um prego quando só se tem um martelo não é taxativamente sinal de nulidade ou estupidez. É importante ser versátil, ver além do próprio nariz, ter agilidade de pensamento e de espírito. Mas é importante também saber rentabilizar o conhecimento adquirido ou os investimentos pessoais e económicos feitos. Há sempre um custo em cada mudança. Há sempre o momento certo para experimentar coisas novas, para inovar garantindo a estabilidade pessoal, ou institucional se for o caso. Andar sempre atrás da última moda, além de um custo significativo, representa um esforço muito elevado de adaptação constante e um risco igualmente elevado de experimentar tendências ou tecnologias ainda não maduras. A estabilidade fica altamente comprometida. Não se pode ver o mundo inteiro como um martelo só porque se tem um prego. Mas também não se pode simplesmente jogar fora o martelo só porque se viu ao longe outra ferramenta qualquer, que possivelmente nem se domina nem tão pouco oferece qualquer garantia de funcionar para o que quer que seja. É necessário ter a perspicácia de não bater em tudo só porque se tem um martelo, mas é ridículo e muito pouco lúcido pregar pregos com um alicate. O segredo, como em tudo, está no equilíbrio.

 



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Inserido em: 2009.03.12 Última actualização: 2009.03.12

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