Tristezas não pagam dívidas!

Dois amigos andavam juntos a caçar quando um deles caiu por um penhasco. O outro desceu até junto dele, apenas para constatar que este já tinha morrido. Em pânico, ligou para o 112: “O meu amigo caiu por um penhasco e morreu! O que é que um posso fazer?!”. A assistente respondeu: “Calma! É preciso manter a calma! Vamos por partes: primeiro certifique-se de que está morto”. Sem mais, o homem puxou da arma e deu um tiro na cabeça do outro: “OK, está morto de certeza. E agora o que é que eu faço?”.

Pese embora a morbidez, a anedota acima foi eleita, num concurso, a melhor de todas. Sem grande surpresa para entendidos, uma vez que é uma ilustração perfeita do que é a essência do humor: incongruência controlada. Numa situação típica, de repente acontece algo de inesperado, mas não completamente desconexo. O raciocínio do caçador da anedota tem toda a lógica, se esquecermos o senso comum que nos diz que nunca se deve matar ninguém, quanto mais não seja porque não é fácil ressuscitá-lo novamente. Um computador vulgar poderia retirar exactamente a mesma ilação das palavras da assistente: ela queria ter a certeza que o homem estava morto. Portanto, um tiro na cabeça é uma boa solução! (Fantástico!)

A piada surge quando é feita uma associação de ideias invulgar, mas não completamente desprovida de sentido. Misturar simplesmente palavras, gestos, objectos, etc., de forma aleatória, só por mero acaso produz efeito humorístico. Mas explorar uma relação entre dois conceitos de forma original, usando analogias ou metáforas, por exemplo, já puxa o riso. É esse essencialmente o trabalho dos humoristas: encontrar relações originais. Como fez o Bruno Nogueira que, a propósito da lei do tabaco, “só o deixavam fumar em cima de um semáforo”. Ou o que fez Raúl Solnado, que “nasceu sozinho enquanto a Mãe tinha ido apanhar um raminho de salsa”.

O humor é parte tão importante e tão natural das nossas vidas que nem damos por ele. Mas é uma forma que temos de atingir o riso, que, por sua vez, é fundamental para o nosso bem estar. A maior parte das pessoas nem dá por isso, mas quando falamos com outras pessoas rimos 46 % do tempo – ou seja, praticamente metade do tempo. O riso é também uma forma de comunicação e interacção, mais importante até do que as palavras.

As crianças enquanto não aprendem a falar comunicam essencialmente através de expressões faciais, entre as quais é preponderante o sorriso. Esta é a primeira forma de comunicação entre mãe e filho, determinante para o bom relacionamento entre ambos e desenvolvimento da criança. Nos primeiros meses de vida de um bebé ainda não existe sequer o humor, mas não deixa de haver um recurso “natural” para provocar o riso: as cócegas. Mesmo entre primatas são comuns os “festivais” de cócegas, que provocam um certo caos e o riso e cimentam, dessa maneira, as relações sociais.

Quando crescemos, o toque no corpo de outros é socialmente mal visto, mas o sorriso não é dispensado. Na verdade, fica muito mal nem sequer sorrir quando se cumprimenta alguém. Sorrimos quando cumprimentamos, enquanto falamos, quando nos despedimos. Não só é natural como é saudável, ou mesmo indispensável, que assim seja. Nos momentos de chegada e partida os sorrisos são espontâneos. Durante as conversas, um toque de humor ajuda a manter o ambiente e os dentes à mostra.

O riso e os sorrisos são praticamente indispensáveis para a correcta integração de uma pessoa na sociedade e a saúde mental, seja qual for a fase da vida. Tão importantes que são dos estados que mais procuramos e que mais oferecemos. Poucos filmes, livros ou mesmo eventos não têm pelo menos algumas cenas cómicas. Mesmo teses e livros científicos incluem com frequência, por exemplo no início de cada capítulo, citações ou pensamentos cómicos.

Infelizmente, na comunicação por e-mail ou carta, a parte não verbal da comunicação é difícil de substituir. Podemos facilmente dizer uma coisa com um sorriso, mas demonstrar esse sorriso por escrito não é fácil. Até porque há sorrisos de todos os tipos, dos mais tímidos aos mais sarcásticos. O nosso cérebro é capaz de distingui-los e lê-los com naturalidade. Mas adivinhá-los a partir de uma mensagem escrita é bastante mais difícil...

Enfim, divirta-se, ria-se, desfrute – mesmo saber o que é o humor não faz uma anedota perder a piada!

 

 



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-41-Tristezas-n-o-pagam-d-vidas-.html

Inserido em: 2009.04.04 Última actualização: 2009.04.06

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