Dinossauro verde Dinossauro verde

Perdedores e ganhadores

 

O Pleo é um dinossauro electrónico, projectado para agir como uma mascote. Pede atenção, aprende, age de forma muito semelhante à de um animal doméstico. Com a vantagem, dirão alguns, de a qualquer momento se poder desligar sem problemas de consciência. O pleo apenas precisa de baterias, não precisa de comida orgânica, nem tão pouco de caixa de areia nem ir à rua para fazer as necessidades. Poucas dezenas de Euros, é quanto custa esta mascote digital.

Mas o Pleo nem sequer é a primeira mascote com cérebro de silício. O Aibo, por exemplo, foi um pequeno sucesso comercial há uma década atrás. Enquanto o Pleo imita um dinossauro, o Aibo é um robô que imita um cão. Já em 1999 o Aibo ladrava, andava, reconhecia aproximadamente 100 comandos de voz, brincava e aprendia com os seus donos.

Já agora, não podemos esquecer os velhinhos Tamagotchi, as mascotes “de bolso” que desde 1996 já venderam mais de 70 milhões de unidades.

Tamagotchi, Aibo e Pleo são provavelmente os precursores de uma era em que os robôs substituem, pelo menos em grande medida, os animais de companhia. Curiosamente, criaram-se à volta deles também comunidades de utilizadores, da mesma forma que se criam clubes de proprietários de cães, gatos e mesmo outros animais. Mas enquanto os proprietários dos cães e dos gatos trocam apenas histórias, informações e dicas, os proprietários das mascotes electrónicas trocam também programas informáticos para os seus animais artificiais.

A mesma tendência, do digital a substituir o real, verifica-se numa série de outras áreas. Que tal uma visita virtual ao Grand Canyon, ao Louvre, ou à gélida Antárctica? Tudo isto é possível sem sair do conforto do seu sofá. Com uma boa ligação à Internet, qualquer pessoa tem os melhores museus, paisagens e cenários, acessíveis no ecrã do computador.

A questão seguinte surge naturalmente: é melhor a versão real, que a natureza oferece, ou a tecnológica? Será preferível um animal doméstico real, verdadeiro, de carne e osso, ou uma imitação electrónica, mas que, por isso mesmo, representa uma menor responsabilidade? Será preferível visitar o Grand Canyon real, suportar o calor, sentir o cheiro, ou ficar no conforto e segurança de um sofá, a ver a aproximação virtual?

Alguns estudos concluem que o contacto com as imitações tecnológicas não tem no ser humano exactamente o mesmo efeito que o contacto com a natureza. Por exemplo, a interacção de uma criança com um cão verdadeiro revela-se mais benéfica para a criança do que a interacção com o robô Aibo. E, escusado seria dizer, visitar de facto o Grand Canyon, andar, subir às pedras, sentar nelas, é bastante mais benéfico para a saúde humana do que ficar mexendo apenas os dedos à frente do ecrã do computador.

A tendência é clara e talvez inevitável: o virtual substitui o real, para nossa comodidade e conforto. Nós adaptamo-nos facilmente a essa mudança, especialmente pelo conforto que proporciona. Mas pagamos um preço, que é o de experienciarmos apenas uma imitação parca daquilo que a natureza nos proporciona, e ficarmos cada vez mais dependentes de uma natureza artificial.

No futuro, um mundo híbrido nos espera. O mercado vai continuar a ser inundado com imitações de animais, de cenários, e até de plantas. Formas de vida e de inteligência artificiais misturam-se e competem com as naturais. Quem vê filmes como o Blade Runner, ou o AI, ao entrar numa loja de brinquedos e deparar-se com o Tamagotchi ou o Pleo compreende que a realidade já não está tão longe assim da ficção, muito embora sejam perfeitamente legítimas algumas reservas sobre a forma como esse mundo híbrido vai se vai concretizar. No entanto, é claro para a maioria dos tecnólogos que é apenas uma questão de tempo. O facto das imitações artificiais não proporcionarem a mesma qualidade de interacção não irá com certeza travar o seu crescimento. As vantagens são inúmeras, e a tecnologia irá certamente melhorá-las mais rapidamente do que a evolução natural das espécies. Inevitavelmente, há-de chegar um dia em que os nossos descendentes hão-de perguntar: E nós, ainda somos humanos?

 



Este artigo pode ser reproduzido total ou parcialmente, desde que seja referido o endereço: http://www.tecnociencia.etikweb.com/Article-43-Perdedores-e-ganhadores.html

Inserido em: 2009.07.10 Última actualização: 2009.07.10

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